Arquivo de Setembro de 2008
Quando a Princesa Isabel
Aboliu a escravidão
Pensou ter erradicado
Aqui nesta região
O sofrimento de muitos
Que vivam em reclusão.
Passados mais de cem anos
Ainda vemos empresas
Que escravizam os homens
Nas mais cruéis fortalezas
Obrigando-os a viver
Debaixo de suas presas.
Nas regiões mais remotas
E longínquas do Brasil
O trabalho escravo é
Um elemento hostil
Que não perdoa a pessoa
Na idade juvenil.
Em condições sub-humanas
Eles são subjugados
E do mundo exterior
Tornam-se alienados
E pelos superiores
Plenamente renegados.
As leis que regem o trabalho
E as demais convenções
Ali são ignoradas
Sem demais explicações
E mediante perguntas
Têm severas punições.
As multas são reduzidas
Tornando compensador
Que as empresas escravizem
O pobre trabalhador
Dando assim prosseguimento
O regime ditador.
As denúncias que são feitas
Para os órgãos responsáveis
Encontram morosidade
E prazos consideráveis
Permitindo a maquiagem
Dos patrões irresponsáveis.
Nas regiões mais longínquas
E lugares afastados
Os juízes e fiscais
São muito bem rechaçados
Pelos grupos de capangas
Que se encontram bem armados.
Os pobres trabalhadores
Por “gatos” são seduzidos
E levados para longe
De onde foram nascidos
Para que suas famílias
Nunca ouçam seus gemidos.
As crianças também sofrem
Com este grande problema
Não entendendo direito
Como funciona o esquema
Sendo alvo do abuso
E uma maldade suprema.
Os números oficiais
Dizem que são trinta mil
Os que são submetidos
A este trabalho viril
Mas é o Estado do Pará
Que tem o maior covil.
Quando chega o aliciado
Ao seu local de trabalho
O patrão explica o jogo
Dando as cartas do baralho
Dizendo: _você me deve
Do sapato ao agasalho.
Então, precisamos todos
De um grandioso debate
E a esta escravidão
Partirmos para o combate
Para livrar todos eles
Num verdadeiro resgate.
O dia 12 de junho
Foi o dia escolhido
Contra o trabalho infantil
E com muito alarido
Precisa ser bem lembrado
Para não ser esquecido.
Quem explora a pobreza
E o cidadão humilhado
Devia passar o resto
Da vida trancafiado
E na cadeia provar
Um bom trabalho forçado.
FIM
19 de Setembro de 2008 às 15:22
J. Victtor
A ausência de moradia
É uma triste penitência
Que talvez um ser humano
Na sua longa existência
Possa passar, sem provar
Seu ponto de referência.
Enquanto alguns milionários
Por um capricho da vida
Com dezenas de imóveis
Dependências e comida
Apreciam confortáveis
Um infeliz sem dormida.
O telhado é a marquise
A cama, de papelão
O banheiro é um poste
A roupa, um pano de chão
E de poucos amolecem
O rígido coração.
Muitos vieram do norte
Do nordeste ou daqui mesmo
Mas pelas ruas vagueiam
Nos seus caminhos a esmo
Sentindo o aroma que exala
Dos bares, um bom torresmo.
Alguns tiveram famílias
E freqüentaram escolas
Mas por um revés da vida
Agora pedem esmolas
Caminhando com os pés sujos
Com machucados nas solas.
As doenças proliferam
E muitos também doentes
Amarram panos nos corpos
Vagueiam como dementes
E sequer têm na lembrança
Aqueles que são seus entes.
Menores cheirando cola
E totalmente drogados
Assustam os transeuntes
Com seus semblantes dopados
São pelas autoridades
Meramente ignorados.
Praticam pequenos roubos
Correndo e pulando muro
Porque sabem que não têm
Chance alguma no futuro
Se acostumando a viver
No mais infeliz apuro.
Também famílias inteiras
Pode encontrar-se nas praças
Com criancinhas de colo
Já bem entregues às traças
E suas mães vomitando
Todas as suas cachaças.
As ruas viram varais
Com as roupas estendidas
De ponta a ponta nas praças
E também nas avenidas
E a prefeitura não toma
As necessárias medidas.
Os moradores de rua
Também constituem família
Mas dormem a céu aberto
E em constante vigília
Fazendo do meio fio
Travesseiro e mobília.
As discussões são freqüentes
E por motivos banais
Transformando-se em batalhas
Em quase guerras campais
E muitos com pau e pedra
Como as brigas neandertais.
O sonho da casa própria
Precisa ser na verdade
Não meramente um sonho
Mas uma realidade
Antes mesmo da pessoa
Já ter avançada idade.
E na tecla insistente
Vou bater e repetir
Porque o governo precisa
Ao cidadão assistir
Para ele não morar
No lugar de ir e vir.
Dentro desse universo
Dos moradores de rua
Alguns são grandes filósofos
E companheiros da lua
E solitários avançam
Pela noite que recua.
Esse quadro lamentável
Faz parte do dia a dia
Devendo ser estudado
Pela etnologia
E também profundamente
Pela sociologia.
FIM
(J. Victtor)
9 de Setembro de 2008 às 10:59
J. Victtor
Coloque as mãos na cabeça!
Mas tenha calma, leitor
Isto não é um assalto
Mas é aborrecedor
Constatar que os presídios
Não têm o menor rigor.
Sendo para correção
Do infrator condenado
O presidido no Brasil
No seu regime fechado
É a pós-graduação
Do crime organizado.
O infrator quando entra
Para sua penitência
Já encontra pela frente
Uma avançada ciência
De grande aprimoramento
Num centro de excelência
Se o ladrão for de galinha,
Apenas um pé rapado
No presídio, sem demora
Fará um bom doutorado
E sairá bacharel
Com diploma de formado.
Aprenderá novas táticas
De seqüestro e motim
E despistando a polícia
Para seu nefasto fim
Encherá de belas notas
Orgulhoso, o boletim.
O Brasil tem que saber
Que ladrão aqui é mato
Por isso precisa ter
Inteligente aparato
Porque para roubalheira
Seu talento é muito nato.
É uma falta de bom senso
Reunir nos ambientes
Pessoas aglomeradas
Com nefastos precedentes
E com a folha corrida
De metros de antecedentes.
As doenças proliferam
Por todo aquele ambiente
Mal cheiroso e obscuro
Tornando-se a nascente
De muitas patologias
De um espaço decadente.
Em quase todos presídios
O esquema é corrompido
Porque os seus carcereiros
Comprados tomam partido
Protegendo um poderoso
E desprezando um oprimido.
Cavam túneis e buracos
Com extrema habilidade
Para poder escapar
Noutro ponto da cidade
Deixando os policiais
Do presídio na saudade.
A trapaça no local
Segue a constituição
Já que os visitantes entram
E abastecem o mercadão
Tornando mais prazerosa
A estada na prisão.
A periculosidade
No presídio é respeitada
Pois em vez da solitária
A figura é admirada
Com comida especial
E um afago camarada.
Telefone celular
Tem acesso livremente
A todos presidiários
Para falar com parente
Ou então com o subalterno
Se tiver maior patente.
As gangues são separadas
Agindo muito melhor
Fazendo de escritório
E aprendendo de cor
O plano bem estudado
Com um risco bem menor.
O que é para educar
E corrigir os detentos
Não teve a felicidade
Dos grandes e úteis inventos
Mas ao contrário, aprimora
Dos ladrões os seus talentos.
Porque o Brasil não copia
Os presídios do estrangeiro
Onde os presos, de listrado
Não encontram picadeiro
Não fazendo de palhaço
Como faz com o brasileiro?
FIM
3 de Setembro de 2008 às 19:47
J. Victtor