Coleção Pragas Brasileiras - FAVELA
15 de Agosto de 2008 às 13:59 J. Victtor | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 609
O amigo aí sentado
Apreciando o cordel
No apartamento próprio
Ou mesmo de aluguel
Tem noção que o nosso lar
É um delicioso hotel.
Porém, saia do sofá
E abra sua janela
Provavelmente você
Verá logo uma favela
Onde o perigo é um
Morador de sentinela.
As casas amontoadas
Sem pintura ou proteção
Bem na ponta dos barrancos
Sujeitas a escorregão
São lugares de pessoas
Sem direito à ambição.
O ser humano não foi
Criado para morar
De tão decadente jeito
Num inóspito lugar
Que não tenha outro jeito
De assim os acomodar.
O esgoto a céu aberto
Tangendo aquelas taperas
Escondendo traficantes
Com suas feições austeras
São produto interno bruto
De gravidades severas.
As vielas sinuosas
Com lama e matagal
Não tornam o ambiente
Nem um pouco cordial
Inacreditavelmente
No seio da capital.
As leis que regem a cidade
Lá não encontram valor
Porque são os traficantes
Juiz, polícia e doutor
E também admirados
Por cada um morador.
O crescimento abusivo
E muito desordenado
Cresce igual uma doença
Em estado avançado
Num corpo já combalido
E à morte condenado.
As autoridades tentam
Dar um charme a essa doença
Porque a favela dá
Oportunidade imensa
De um bom eleitorado
Numa grande recompensa.
Os políticos aproveitam
Prometendo dar emprego
Seduzindo os favelados
Com ardiloso apego
Mas sugando-lhes o sangue
Assemelham-se ao morcego.
Por esta e outras razões
Basta um terreno baldio
Para em pouquíssimo tempo
Uma favela no Rio
Tomar forma e crescer
No que antes era vazio.
Algumas viraram bairro
Como a famosa Rocinha
Pela sua envergadura
E sua dorsal espinha
Que de tão grande ela quase
Toca a favela vizinha.
Os políticos também
Chamam de comunidade
Pois assim eles conseguem
Disfarçar a crueldade
Que vivem os favelados
À margem de uma cidade.
E o motivo pelo qual
Ninguém toma providência
Já se tornou um exemplo
Da mais cruel indecência
Pois favela nunca vai
Ser lugar de referência.
As favelas são resquícios
De uma longa escravidão
Pois lá são onde os negros
Depois da abolição
Fugiram para morar
E acalmar o coração.
Aposto que o criador
Do nosso grande universo
Quando vê uma favela
Pensa: _Como fui perverso
Deixando acontecer
O que era pra ser o inverso?
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